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16/07/2021

ATMS avançam nas práticas ESG e marcam seu lugar numa sociedade ainda dividida entre o dinheiro físico e o digital

ATMS avançam nas práticas ESG e marcam seu lugar numa sociedade ainda dividida entre o dinheiro físico e o digital

Por Ademir Morata

Elias Rogério da Silva, presidente da Diebold Nixdorf, afirma que o equipamento está deixando de ser um simples dispensador de dinheiro para se transformar num vetor de inclusão bancária e social.

Alguém sai para trabalhar apressado e se esquece de deixar em casa o dinheiro suficiente para as necessidades do dia. Essa pessoa, então, vai ao internet banking, manda uma autorização para a empregada efetuar um saque por meio de um QR code. A funcionária se dirige a um ATM (automatic teller machine, o popular caixa eletrônico), faz a retirada e assim obtém o recurso para comprar o que for preciso. A cena enfoca uma operação que começou na web, passou pelo mobile e terminou num ATM, e explica por que, mesmo com o avanço das formas de pagamento digitais, os ATMs continuam exercendo papel fundamental na estrutura cada vez mais multicanal que se forma na indústria financeira.
O exemplo é apresentado pelo presidente da Diebold Nixdorf no Brasil, Elias Rogério da Silva, nesta entrevista. Nela, o executivo comenta a transformação em curso no conceito de uso desses equipamentos por conta da introdução dos chamados recicladores de notas e, principalmente, o avanço da indústria na área das iniciativas ESG (sigla do inglês environmental, social and governance, métrica criada para avaliar o desempenho das empresas nas áreas ambiental, social e de governança, como o nome diz) e sua colaboração com os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), na área da inclusão financeira.

NO CENÁRIO ATUAL DE TRANSFORMAÇÃO NA INDÚSTRIA FINANCEIRA, COM CADA VEZ MAIS INSTRUMENTOS DIGITAIS DE PAGAMENTO GANHANDO MERCADO (PIX, LINKS, CARTÕES E CARTEIRAS DIGITAIS), QUAIS SÃO AS OPORTUNIDADES E DESAFIOS PARA O SETOR DE ATMS?
É importante contextualizar que a Diebold Nixdorf é uma empresa global americana com mais de 160 anos de existência. Pelo menos nos últimos 50 anos, ela tem trabalhado fortemente focada no segmento financeiro, sendo líder mundial na automação bancária e, mais recentemente, nos últimos quatro ou cinco anos, por meio de um processo de aquisição, entrou também na área de automação comercial do mercado de varejo. Dessa forma, temos vivenciado a transformação da indústria no mundo. Hoje, estamos presentes em mais de 120 países. Nesse contexto, a unidade brasileira tem uma importância muito grande. Ela é a terceira maior subsidiária do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos e da Alemanha em termos de volume de negócios e faturamento. E vale ressaltar que a indústria financeira brasileira tem muito a ensinar para os mercados mundiais por tudo o que vivemos aqui, como hiperinflação, consolidação dos bancos e mais recentemente o processo de transformação digital. Um fato a ressaltar é que, apesar do avanço do digital, da moeda virtual e das transações sem dinheiro, existem ao redor do mundo sociedades cashless e outras, mesmo no mundo desenvolvido, ainda baseadas em cash. Um exemplo é a Alemanha, que é uma cash society. Eles usam o dinheiro. O Brasil é uma cash society, a despeito de existirem todos esses mecanismos. Prova disso é que os relatórios anuais da Febraban, que trazem os volumes de transações dos bancos, mostram que o volume total de transações cresce exponencialmente nos canais digitais, mas, pelo menos nos últimos cinco ou seis anos, o número absoluto de transações nos ATMs tem se mantido estável. Em função de diversos estudos, também acreditamos em algo que chamamos internamente de long tail of cash. Ou seja, ainda tem um período longo no qual continuará havendo oportunidade
para os ATMs convencionais. Diante desse cenário, nosso posicionamento é o de uma empresa que dispõe de tecnologia de hardware, software e serviços para conectar o mundo do dinheiro físico ao mundo do dinheiro digital.

COMO FUNCIONA ESSA CONEXÃO NA PRÁTICA?
Podemos usar o conceito de transação multicanal. Vamos pegar o exemplo de uma pessoa que saiu para o escritório e esqueceu que deveria ter deixado 200 ou 300 reais para uma assistente em
casa fazer a feira e comprar as coisas de que precisava naquele dia. Com os nossos sistemas, se isso acontecer, essa pessoa pode chegar ao escritório, ir ao computador, entrar no internet banking,
mandar uma autorização única para o celular da assistente. Com isso, ela pega essa autorização, provida de um QR code, vai a um ATM e faz um resgate por meio de uma transação única daquele
valor que foi autorizado. Então, a operação é totalmente multicanal. Começou pela internet, passou pelo celular e terminou em um ATM. Isso mostra como  as tecnologias se interconectam. A essência do nosso trabalho é simplificar a vida das pessoas nas suas interações com os bancos e/ou com o varejo.

ISSO ENTÃO DEMONSTRA QUE EXISTE UMA TENDÊNCIA DE QUE OS ATMS ESTEJAM EVOLUINDO PARA SE INTEGRAR CADA VEZ MAIS A ESTRUTURAS MULTICANAIS E AOS NOVOS MODELOS DE NEGÓCIOS?
Sim. Os ATMs estão deixando de ser simples dispensadores de dinheiro. Um exemplo é a tecnologia que estamos trazendo para o Brasil de reciclagem de moedas. Só para contextualizar, o fato é que, para um caixa eletrônico estar funcionando existe toda uma cadeia de logística destinada a garantir sua eficiência e, nesse processo, um dos elos importantes é o transporte de valores. É necessário garantir que haja dinheiro no equipamento na hora em que alguém for até ele para fazer o saque. E isso é uma operação complexa e cara. Não adianta a máquina estar no ar e não ter o dinheiro. Então, essa tecnologia da reciclagem funciona da seguinte forma. Alguém se dirige a um caixa eletrônico para fazer um depósito de 2 mil reais na máquina. Essa operação, quando feita no modelo tradicional, exigia o preenchimento de um envelope e a colocação das notas dentro dele. Dessa forma, esse recurso só seria disponibilizado na conta do depositante no dia seguinte e era necessária a intervenção de um funcionário da instituição financeira para contar, verificar se não havia nota falsa e só então contabilizar. Com a nova tecnologia de reciclagem e reconhecimento
de notas, a pessoa vai à máquina, coloca aqueles 2 mil reais sem envelope, inserindo o dinheiro direto no equipamento. A máquina valida, identificando inclusive se existe alguma nota falsa, contabilizando apenas o valor correspondente às notas verdadeiras, e esses recursos ficam disponíveis imediatamente para outros usos. Na sequência, outra pessoa vem fazer um saque de 500 reais e tem grande chance de pegar as notas correspondentes a esse valor do montante de 2 mil reais que o outro cliente havia depositado. Esse é o conceito da reciclagem. Com isso, fazemos com que a necessidade do reabastecimento seja, em alguns casos, até metade do que era antes de haver essa tecnologia. Então, a máquina fica mais disponível, mais bem abastecida, e isso vai exigir um número menor de visitas do carro-forte para reabastecer esse caixa, o que também acaba inserindo nosso segmento no âmbito da sustentabilidade e de aspectos ligados ao conceito ESG.

PODEMOS ENTÃO CONSIDERAR ESSA TECNOLOGIA UMA RESPOSTA AOS QUE AFIRMAM QUE, DO PONTO DE VISTA DA SUSTENTABILIDADE, OS PAGAMENTOS
ELETRÔNICOS SÃO MAIS ADEQUADOS POR ELIMINAREM, ALÉM DA PRÓPRIA CONFECÇÃO DAS NOTAS, PROCESSOS COMO A LOGÍSTICA DE DISTRIBUIÇÃO E
RECOLHA DESSES NUMERÁRIOS?
Creio que sim. Inclusive a usabilidade e a experiência do cliente ficam melhores. E é uma transação que também tem um componente de segurança bastante importante. É suficiente comparar uma transação dessas com a que era feita com o uso do envelope. Para o banco é mais seguro, mais eficiente e também mais barato porque elimina a necessidade de interferência humana no processo. Essa tecnologia está embarcada numa nova família de produtos que lançamos mundialmente no ano passado e que está vindo este ano para o Brasil. Ela é chamada de ATMs DN Series™, e tem muitas outras características voltadas para ações ESG. Por exemplo, as máquinas são confeccionadas com a utilização de materiais reciclados e recicláveis. Outra característica importante é o fato de que, em média, os novos terminais são 25% mais leves que a maioria dos equipamentos tradicionais – o que ajuda a reduzir as emissões de CO² na fabricação, no processamento e até no transporte de componentes e terminais. Também utilizam LEDs de última geração e sistemas elétricos altamente eficientes, permitindo, em geral, economia de energia de até 50% em comparação com os ATMs tradicionais. Dessa forma, a empresa já evitou a emissão de mais de 16.500 toneladas de CO². Tudo isso olhando para a construção desse mundo mais sustentável e aderente aos princípios do ESG.

A DIEBOLD NIXDORF ANUNCIOU RECENTEMENTE A RECICLAGEM DE QUASE 8 MIL TONELADAS DE EQUIPAMENTOS NO BRASIL, ALEMANHA E AMÉRICA
DO NORTE. É POSSÍVEL DESCREVER QUE TIPO DE MATERIAL É RECICLADO E COMO FUNCIONA O PROGRAMA?
O equipamento físico é feito de parte plástica injetável, tem parte metálica e componentes eletromecânicos, sendo que todos eles podem ser reutilizados de alguma forma. Trabalhamos com uma
cadeia de fornecedores que são aderentes também a esse princípio. A parte interna, onde existem os numerários, as engrenagens, as correias, também pode ser incluída nesse conceito. Essas 8 mil toneladas  foram recicladas seja no nosso processo de manufatura, seja no de prestação de serviços.

ALÉM DESSAS AÇÕES MATERIAIS DE FABRICAÇÃO DE EQUIPAMENTOS, VOCÊ ACREDITA QUE OS ATMS PODEM SER VISTOS COMO INSTRUMENTOS IMPORTANTES EM OUTRAS DIMENSÕES DOS ODS DA ONU, COMO A INCLUSÃO FINANCEIRA, POR EXEMPLO? EM QUE SENTIDO?
Eu diria que há uma aderência de 100%. No Brasil, temos mais de 5.500 municípios. Os bancos a que atendemos possuem equipamentos espalhados pelos mais longínquos rincões do país. Em muitas comunidades, o banco é o nosso ATM. Às vezes, o banco é o terminal lotérico, também fabricado pela Diebold Nixdorf. O modelo das loterias é um modelo perfeito de inclusão bancária porque a pessoa vai fazer uma aposta e já leva uma conta para pagar. O terminal é financeiro de inclusão. A pessoa pode nem ter uma conta bancária. Então, efetivamente o autosserviço é um meio de inclusão bancária. Sem sombra de dúvida, esses equipamentos trabalham no esforço de inclusão social e inclusão bancária.

COM A REGULAMENTAÇÃO DO OPEN BANKING, POR EXEMPLO, PODE AUMENTAR O USO DO ATM COMO INSTRUMENTO DE INCLUSÃO?
Esse movimento visa suavizar o oligopólio das grandes instituições no atendimento ao cidadão. O conceito aprofunda a ideia de que a qualquer hora e em qualquer lugar é possível realizar as transações financeiras. Ele incentiva ainda mais a vida das fintechs entregando o serviço bancário de uma forma mais simples, mais barata e mais descomplicada. Então, vejo que o ATM é uma peça dessa cadeia de valor porque, na prática, fazemos uma boa parte das transações com celular, vez ou outra usamos o internet banking e vamos com relativa periodicidade a um terminal de ATM para efetuar um saque a fim de não ficarmos totalmente sem dinheiro. Mesmo no mercado mundial, segundo pesquisas que fizemos, mais de 70% das transações comerciais são feitas em dinheiro. E mais de 68% dos brasileiros recebem seu salário em dinheiro. Uma coisa que temos de respeitar é o aspecto cultural. Podemos fazer tudo sem o dinheiro? A resposta é sim, podemos. Mas vamos fazer tudo sem o dinheiro? Aí a resposta é não. Justamente porque tem o aspecto cultural, que não se muda do dia para a noite. Então, creio que sim. O ATM é e será cada vez
mais um vetor de inclusão bancária e também de inclusão social.

 

Essa reportagem se encontra no Anuário Brasileiro de Bancos, clique aqui para fazer o download.

 

Contato para imprensa:

diebold@planin.com

andre@planin.com

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